Articulação comunitária do programa Ruas de Brincar em Jundiaí

Em 2021, a Cidade Ativa expandiu seus territórios de atuação e contribui com um programa inspirador na cidade de Jundiaí, no interior do estado de São Paulo: o Ruas de Brincar, que está em funcionamento desde 2019 como parte das ações da Urban 95. O programa da prefeitura visa oferecer as ruas como espaços de lazer aos domingos e feriados, em um determinado horário, para que as crianças possam brincar com segurança e autonomia a partir da solicitação feita pelos próprios moradores – os quais se tornam responsáveis pela Rua de Brincar ao longo de um ano.

Em uma proposta bem alinhada com a visão de mundo e essência de criar cidades mais acolhedoras para crianças e familiares – as cidades do “sim” -, fomos convidadas pelo Ateliê Navio em dois momentos para investigarmos e indicarmos alternativas de como o programa poderia se consolidar com longevidade na cidade. Com isso,  desenvolvemos as seguintes ações: 

  • Fase 1 – A aproximação com o território, conexão e ativação: em 2021, estruturamos, elaboramos e conduzimos um Plano de Engajamento e suas respectivas atividades com a comunidade local no bairro Novo Horizonte (Jundiaí/SP), assim como a preparação, programação e organização de uma ativação piloto da Rua de Brincar em dezembro/2021 na mesma região, identificando assim lacunas e oportunidades para a expansão do programa na cidade e consolidando sugestões de próximos passos;
  • Fase 2 – Consolidação das relações locais e construção coletiva do Kit de Ativação: em 2022, revisamos e demos continuidade ao Plano iniciado anteriormente e revisitamos as sugestões indicadas como pontos cruciais para que o poder público pudesse fomentar ainda mais o programa na cidade. A partir disso, estruturamos, detalhamos e e conduzimos novas atividades participativas para a construção colaborativa e experimentação de um kit de ativação para que novas Ruas de Brincar pudessem ser lideradas por moradores locais, inspirando assim que o programa ganhe cada vez mais adeptos na cidade. 

Como fio condutor da colaboração da Cidade Ativa nesta parceria, as atividades visaram compreender as lacunas, fragilidades, oportunidades e formatos de expansão do programa. Isso foi feito a partir da leitura atenta do território e da escuta sensível das pessoas que o usufruem.

Já deu vontade de começar uma Rua de Brincar por aí? Continua aqui com a gente que, na sequência, contamos brevemente como esse trabalho foi conduzido nas duas fases. 

FASE 1 – APROXIMAÇÃO COM O TERRITÓRIO, CONEXÃO E ATIVAÇÃO

Como engajar e envolver a comunidade para realizar uma Rua de Brincar no bairro Novo Horizonte ?

Essa pergunta guiou o início dessa ação. Com o intuito de (re)conhecer a dinâmica local, as atividades cotidianas e as pessoas que compõem esse ambiente urbano, assim como planejar e organizar uma ativação piloto, a equipe vislumbrou três passos estratégicos, foram eles: 

Passo um – conexão com pessoas e aproximação com território: No qual foi desenhado um conjunto de atividades de reconhecimento do território e contato inicial com as pessoas e grupos de referência identificados através do mapeamento de atores, sendo crucial para o refinamento da estratégia e das ferramentas de engajamento e para o planejamento e execução da ativação piloto. As ações foram realizadas tanto em formato virtual (reuniões e entrevistas via aplicativos de vídeochamada) quanto em campo, através de visitas ao local, em reuniões e atividades lúdicas com crianças. Esse primeiro passo permitiu identificar e conectar pessoas e grupos interessados em apoiar a ação Ruas de Brincar na comunidade, respeitando seus saberes, limites de colaboração e compreendendo como cada agente gostaria de se envolver ao decorrer das ações.

Como criar repertório? Existe a necessidade de oferecer para cuidadores possibilidades de atividades. [A ativação] não é fazer um evento, é reutilizar a rua de uma forma diferente. O objetivo é levar a infância para a comunidade, é respeitar a infância.

Compartilhamento em reunião online com educadores.

Passo dois – ativação de Rua de Brincar no Novo Horizonte: Esse passo foi destinado a detalhar e conduzir, de forma coletiva com a comunidade, as atividades da ativação da Rua de Brincar. Essa primeira experiência de planejar, “fazer junto” a ativação garantindo maior segurança viária, atividades variadas (lúdicas, interativas e colaborativas) se dá como um dos principais legados da ação: a comunidade, unida, se reconhece como agente de transformação do território. A disponibilidade de participação durante todos os momentos da ativação do corpo docente da EMEB Congilio, e da moradora (responsável por solicitar a autorização) foi de extrema importância e fundamental para transmitir confiança para outras moradores da região. Com esse apoio, assim como das demais pessoas e grupos, a ativação dessa Rua de Brincar pode revelar a identidade e cultura presente no bairro, assim como preservar costumes e hábitos locais. 

A programação contou com 9 horas de atividades e mais de 40 participantes, como oficinas de plantio, apresentação, aula de dança, contação de histórias e oficina de pipa conduzidas por agentes locais; pintura de faixa para sinalização simbólica da “Rua de Brincar” e pesquisas interativas conduzidas pela equipe da Cidade Ativa. /brincadeiras espontâneas e livres como pega-pega, amarelinha, bambolê, corda também marcaram presença.

“Se não fosse esse dia hoje, eu estaria em casa passando uma vassoura no chão. E hoje eu até brinquei”.

Moradora local

“isso (a Rua de Brincar) poderia acontecer mil dias!”.

Criança moradora local

Permeando esses dois passos, um dos desafios postos foi de desenhar e conduzir ferramentas de escuta com as crianças, de maneira a criar uma relação de confiança para que elas se sentissem confortáveis em compartilhar suas percepções. Através de perguntas norteadoras, foi possível estabelecer um fluxo de ação desse processo de escuta que se resumiu em: (1) observação, (2) diálogo/contato, (3) registro e (4) reflexão/avaliação.

Próximos passos- acompanhamento e manutenção: A equipe trouxe recomendações e subsídios para apoiar o planejamento, detalhamento e execução de futuras ações do projeto Ruas de Brincar. Foi destacada a importância em manter uma comunicação e engajamento contínuo com a comunidade, construir uma gestão coletiva do Ruas de Brincar junto a pessoas interessadas, escola e poder público, coletar dados para criar um histórico de evidências e registros do programa e considerar uma transformação permanente de readequação da geometria viária.

Grupo de pessoas em frente à saída de escola. À direita há um muro azul e branco com uma mulher de camiseta rosa encostada. À esquerda há um homem de camiseta branca e máscara de proteção facial empurrando uma bicicleta.
Entrevistas com cuidadores em saída da escola. Crédito: Cidade Ativa
Atividades de escuta lúdicas com crianças. Crédito: Cidade Ativa
Reconhecimento do bairro através de visita guiada por liderança mirim da região. Crédito: Cidade Ativa
Durante o dia da ativação, banho de mangueira refrescou participantes. Crédito: Cidade Ativa
Contação de histórias durante a ativação. Crédito: Cidade Ativa
Pesquisa com painéis interativos conduzidos pela equipe. Crédito: Cidade Ativa
Oficina de confecção de pipa na ativação. Crédito: Cidade Ativa
Brincadeiras intergeracionais, como o pião, resgataram as memórias de pessoas adultas ao brincar na rua. Crédito: Cidade Ativa
Pintura simbólica de faixa de sinalização criou senso de pertencimento entre crianças participantes. Crédito: Cidade Ativa
Crianças de todas as idades puderam usufruir o espaço de maneira criativa. Crédito: Cidade Ativa
Brincadeiras tradicionais, como pular corda, ganharam espaço e muitas crianças adeptas. Crédito: Cidade Ativa

FASE 2 – CONSOLIDAÇÃO DAS RELAÇÕES LOCAIS E CONSTRUÇÃO COLETIVA DO KIT DE ATIVAÇÃO

Nesta segunda fase, novamente a convite do Ateliê Navio, a Cidade Ativa revisou o trabalho desenvolvido anteriormente e estruturou, elaborou e conduziu novas atividades participativas. Dado o processo iniciado no bairro Novo Horizonte a partir da primeira ativação para uma Rua de Brincar em 2021, foi percebida a necessidade de estruturar elementos materiais e processuais para apoiar moradores na condução de ativações futuras. Essa necessidade foi traduzida na criação de um “kit de ativação” para a Rua de Brincar, que leva consigo o princípio de ser composto por materiais versáteis, fáceis de armazenar e duráveis. 

Para compreender quais poderiam ser esses elementos e as barreiras que poderiam impedir pessoas a solicitarem Ruas de Brincar em seus bairros, o processo se estruturou de maneira coletiva e participativa em dois momentos:

  • Reaproximação com comunidade local e leitura do território: onde foi possível acionar pessoas que participaram da ativação em 2021 e ter uma devolutiva do que acharam que foi bom, o que não foi tão bom e o que poderia melhorar, assim como coletar dados comportamentais de base para compreender tecnicamente as dinâmicas da Rua de Brincar e;
  • Kit de ativação – projeto piloto: experimentação dos elementos propostos, na qual foi possível explorar uma série de materiais com diferentes cores, texturas e formas e observar como as crianças e adultos se apropriaram dos objetos durante uma ativação da Rua de Brincar. As observações apoiaram na orientação e definição final dos materiais que resultaram na composição do Kit.

Passados alguns meses da ativação da Rua de Brincar em 2021, as seguintes percepções estavam vivas na comunidade: 

“Foi tudo muito legal. Tinha muitas brincadeiras e muitas crianças. Tinha muita gente, não só a gente que organizou”.

“Foi legal para os mais velhos também poderem brincar na rua, como faziam quando crianças”.

“Sem o apoio da creche não teria rolado [a Rua de Brincar]”

“É difícil as crianças saírem e nesse dia saíram. No dia a dia é perigoso.”

Como parte dessa fase, com a intenção de compreender a dinâmica local, consolidar as observações empíricas e embasar tomadas de decisão para as ativações futuras e até mesmo a revisão da estrutura do programa, foram realizadas contagens e medições – assim como análise dos dados – considerando fluxo de pessoas e veículos, mapeamento de atividades de permanência, questionários. ferramentas de escuta para primeira infância e escuta da primeira infância através de educadoras da creche local.

Para a ativação de testagem do kit, a proposta foi desenhada para oportunizar que crianças participantes se apropriassem dos elementos dispostos na rua de maneira livre, ou seja, sem uma pré-determinação de como cada um dos materiais poderia ou deveria ser utilizado, incentivando também o uso desses objetos de maneira intergeracional – entre cuidadores e crianças. No dia da ativação, que durou cerca de 9 horas, mais de 80 participantes estiveram presentes ao longo do dia.

Para o kit, 37 elementos foram testados e categorizados entre infraestrutura, sinalização e comunicação e brincadeiras/atividades. Dentre eles e após um estudo aprofundado por parte da Cidade Ativa de como havia ocorrido a apropriação desses materiais no dia da ativação, considerando também os custos de cada um, o kit final contou com 13 elementos, com destaque para giz bastão, bambolê, corda e tubos de papelão como os que fizeram maior sucesso dentre as brincadeiras.

Durante a continuidade do engajamento da comunidade percebeu-se uma falta de familiaridade com o programa Ruas de Brincar por parte dos munícipes. Apesar de toda a informação a respeito do funcionamento do programa estar disponível online, essa informação não estava atingindo minimamente seu principal público alvo. 

A partir desse cenário, foi identificado mais um elemento para compor o kit em elaboração: o Guia passo-a-passo. Um material orientativo que funcionasse em três escalas: (i) divulgação do programa e seu funcionamento; (ii) detalhamento dos requisitos e processo de solicitação; (iii) acompanhamento e apoio aos munícipes que receberem a autorização para uma Rua de Brincar.

Ele introduz o programa, apresenta de maneira simples os requisitos para que uma rua seja transformada em Rua de Brincar e fornece o passo-a-passo para abrir uma solicitação junto à prefeitura. Também fornece apoio aos moradores na mobilização da comunidade de vizinhos e na organização da primeira ativação, sempre reforçando o caráter colaborativo desta construção. O guia também apresenta instruções quanto à manutenção da Rua de Brincar e mobilização recorrente, incluindo articulação com vizinhos, compartilhamento de responsabilidades e até a exploração dos materiais que compõem o kit para que sejam aproveitados em seu máximo potencial.

Como uma das últimas etapas desse trabalho, a Cidade Ativa apoiou uma ativação autônoma de uma Rua de Brincar, com a intenção de que o/a responsável se sentisse protagonista a conduzir esse processo. Nela, foi possível presenciar e observar a ativação sendo liderada pela moradora, com a presença de crianças e diversos perfis de pessoas que compuseram o sucesso que foi essa nova forma de ocupar a rua. Um outro objetivo desta ativação autônoma foi validar o kit de ativação junto ao Ateliê Navio e a Prefeitura de Jundiaí.

Pintura de faixa simbólica da Rua de Brincar. Crédito: Cidade Ativa
Brincadeiras espontâneas a partir de materiais disponíveis. Crédito: Cidade Ativa
Amarelinha desenha com giz no asfalto fez sucesso entre crianças e adultos. Crédito: Cidade Ativa
Mais uma vez, a corda é elemento fundamental para promover o brincar na rua. Crédito: Cidade Ativa
Materiais emprestados pela escola, como tábuas de madeira e tubos de papelão, expandiram as possibilidades de brincadeiras. Crédito: Cidade Ativa
A lona foi disposta como um material de proteção contra o piso e logo se transformou em uma “lousa”. Crédito: Cidade Ativa
Tubos de papelão despertaram curiosidade e foram usados de inúmeras formas criativas. Crédito: Cidade Ativa
O bambolê foi testado de diversas formas, se apresentando como versátil elemento. Crédito: Cidade Ativa
Expressão através do desenho no asfalto demarcando a vontade de pertencer a um lugar de brincar na cidade. Crédito: Cidade Ativa

EQUIPE ENVOLVIDA NA AÇÃO
Gabriela Callejas – Diretora na Cidade Ativa
Mariana Wandarti Clemente – Coordenadora na Cidade Ativa
Nathalie Prado – Coordenadora na Cidade Ativa
Elaine Terrin – Colaboradora na Cidade Ativa e especialista em infância, educação e arquitetura
Márcia Trento – Colaboradora na Cidade Ativa
Viviane Tiezzi – Colaboradora na Cidade Ativa

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