Seminário online “Quando o clima muda o caminho: gênero, cuidado e as novas rotas de uma mobilidade em crise”

junho 29, 2026 | por cidadeativa

À medida que eventos climáticos extremos transformam a forma como as pessoas circulam pelas cidades, cresce também a necessidade de questionar quem é considerado — e quem permanece invisível — nas políticas de mobilidade. Essa reflexão esteve no centro do seminário online “Quando o clima muda o caminho: gênero, cuidado e as novas rotas de uma mobilidade em crise”

O evento foi promovido através de uma parceria entre as iniciativas “Quando o clima muda o caminho” (Mobilidade em Transformação) realizada pela Cidade Ativa e o projeto MIIS (Mobilidade Interseccional Inclusiva e Sustentável), composto por Instituto Pólis, Inesc, Instituto Peregum e Sos Corpo, em parceria com a União Europeia. Reuniu pesquisadores, gestores públicos, representantes da sociedade civil, estudantes e profissionais de diferentes áreas para refletir sobre as relações entre mobilidade urbana, gênero, cuidado e crise climática.

Em uma conversa com Clareana Cunha (Instituto Pólis), Gisele Brito (Instituto Peregum), Lorena Freitas (ITDP Brasil), Mercia Alves (SOS Corpo), Ruth Costa (Espaço Cultural Ruth Costa) e mediação de Nathalie Prado (Cidade Ativa), as discussões evidenciaram que a mobilidade urbana foi planejada a partir de um sujeito padrão, associado ao trabalho formal e aos deslocamentos lineares entre casa e emprego. Essa lógica produtivista deixou à margem trajetos mais complexos e fragmentados, relacionados às atividades de cuidado — como acompanhar crianças, pessoas idosas, acessar serviços essenciais— que somam, ainda, a conciliação entre o trabalho remunerado e não remunerado.

A produção de dados racializados e com recorte de gênero é um instrumento de luta política. As desigualdades não são desconhecidas, mas continuam sendo invisibilizadas em muitos processos de planejamento. Produzir dados é uma forma de pressionar e disputar narrativas sobre quem importa nas políticas urbanas. (Gisele Brito, Instituto de Referência Negra Peregum)

Esses deslocamentos, realizados majoritariamente por mulheres e atravessados por desigualdades de raça e território, revelam que a crise da mobilidade não é apenas uma questão de infraestrutura ou sistemas. Trata-se também de uma crise de prioridades: quais deslocamentos importam, quais experiências são consideradas legítimas e quais vidas são colocadas no centro das políticas públicas.

Quando falamos em mobilidade do cuidado, estamos jogando luz sobre um conceito que o planejamento urbano tradicional ignorou por décadas. Hoje, essa estrutura de cidade e de mobilidade que já sobrecarrega e invisibiliza o cuidado enfrenta um outro teste: a crise climática. Quando o clima muda o caminho, o peso cai de forma desproporcional sobre essas mesmas redes de cuidado e ainda de maneiras diferentes a depender das camadas de identidade que configuram estas mulheres. (Nathalie Prado, Cidade Ativa)

As convidadas especialistas destacaram que a crise climática não cria desigualdades, mas aprofunda vulnerabilidades já existentes. Ondas de calor, enchentes e eventos extremos atingem de maneira desproporcional mulheres negras, periféricas e pessoas que dependem da mobilidade ativa ou do transporte público.

A precariedade da infraestrutura urbana — ausência de arborização, falta de conforto térmico, pontos de ônibus inadequados, calçadas inseguras e serviços concentrados em determinadas áreas da cidade — faz com que os impactos climáticos sejam sentidos de maneira desigual. Nesse contexto, discutir justiça climática implica também discutir justiça territorial, racial e de gênero.

Quando o clima muda o caminho, não muda apenas o trajeto. Muda o tempo disponível, reorganiza o cuidado e transforma a rotina. A mobilidade é tempo de vida, acesso à cidade e condição para o exercício de direitos. A imobilidade não nasce da falta de vontade de sair de casa, mas da ausência de condições para isso. (Clareana Cunha, Instituto Pólis)

Outro eixo central da discussão do seminário foi a produção de dados e metodologias capazes de revelar aquilo que os instrumentos tradicionais frequentemente invisibilizam. As discussões apontaram para a necessidade de ampliar pesquisas que considerem gênero, raça, cuidado e território de forma integrada, incorporando indicadores qualitativos, experiências cotidianas e processos participativos. A produção de dados foi compreendida para além de uma atividade técnica, sendo trazida como uma ferramenta de incidência política e de disputa por narrativas sobre quem e como se desloca nas cidades.

Durante os grupos de trabalho, participantes destacaram a importância de pesquisas origem-destino sensíveis às trajetórias de cuidado, metodologias participativas, dados racializados e avaliações que permitam compreender os efeitos das políticas públicas sobre diferentes grupos sociais.

Durante essa construção coletiva, também ficou evidente o desejo de fortalecer processos participativos que ampliem a presença de mulheres e grupos historicamente sub-representados nas decisões sobre mobilidade e clima. Foram mencionadas experiências já em curso — como conselhos, planos nacionais, iniciativas comunitárias e redes de mobilização —, mas também a necessidade de criar novos espaços de formação, escuta e incidência capazes de aproximar as decisões públicas das experiências vividas nos territórios.

As reflexões produzidas ao longo do seminário convergem para uma mesma direção: enfrentar a crise climática exige um esforço multidisciplinar para repensar os sistemas de mobilidade a partir da sustentação da vida. Essa transformação, no entanto, ainda esbarra em desafios importantes. É necessário avançar no desenho e na implementação de infraestruturas, serviços e espaços de mobilidade capazes de reconhecer e acolher as múltiplas experiências de deslocamento nas cidades. Isso implica reconhecer a mobilidade urbana e suas transversalidades temáticas, como cuidado, gênero e clima, como elemento central do planejamento urbano; produzir dados mais sensíveis às desigualdades de gênero, raça e território; fortalecer mecanismos de participação social; e compreender o transporte como um direito fundamental, indispensável para a construção de cidades mais justas, resilientes e comprometidas com a justiça climática. 

Quando o clima muda o caminho, é preciso mudar também as perguntas e ações que fazemos sobre a cidade — e, sobretudo, repensar e questionar para quem, e por quem, ela é planejada.